As discussões sobre o modelo multilateral de cooperação, o qual leva à existência de Organizações Internacionais (OIs), já existem mesmo antes da pandemia. O funcionamento, a eficiência e a necessidade das OIs já vem sendo questionado por alguns Estados e, principalmente, pelos Estados Unidos de Donald Trump. A situação pandêmica que estamos vivenciando contribui para expor e acentuar algumas dificuldades dentro dessas instituições e as disputas que ocorrem à nível global por causa da pandemia também possuem reflexos dentro dessas organizações. A instituição que é referência no Sistema Internacional é a Organização das Nações Unidas (ONU), a qual possui uma agência especializada para a saúde, a Organização Mundial da Saúde (OMS). Outra instituição interessante de analisar a é União Europeia (UE), que é uma organização regional, mas com grande impacto internacional e que foi muito afetada pelo coronavírus. Quais são as dificuldades enfrentadas por essas OIs no combate à pandemia de Covid-19?
A Organização das Nações Unidas (ONU)
Nesse momento, a ONU sofre com a falta de uma liderança, na ausência dos EUA, no cumprimento desse papel e se vê sem direcionamento. Em abril, nove Estados, dentre os quais Venezuela, Cuba, Rússia, Camboja e República Popular da Coreia, assinaram um documento direcionado à Michelle Bachelet (Alta Comissária para a Paz da ONU) com o pedido de que fossem suspensas medidas unilaterais durante a pandemia. Isso porque os EUA aplicaram sanções econômicas à Venezuela. António Guterres, secretário geral da ONU, e Bachelet já haviam se manifestado a favor dessa suspensão no final de março. O comunicado afirma que Medidas Coercitivas Unilaterais (MCU) dificultam a cooperação para combater a pandemia, porque prejudicam os recursos financeiros dos Estados e impede que eles importem produtos básicos de saúde.
Em abril, dentro do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), que é o órgão responsável pela manutenção da paz e da segurança internacional, estava sendo debatido o cessar-fogo dos conflitos armados durante a pandemia de Covid-19, o que foi pedido por Guterres no final de março (“O possível cessar-fogo global frente à pandemia” de Ana Colares [GeoPost]). Antes da reunião entres os membros do Conselho, os EUA afirmavam que qualquer documento da ONU deveria assinalar a origem chinesa do vírus, o que não foi aceito pela China e nem pela Rússia. Além disso, a África do Sul não aprovava reuniões sobre a pandemia, porque o Conselho não deveria se reunir para discutir assuntos sanitários.
A França e a Túnisia, por sua vez, desenvolveram uma resolução que pedia uma maior coordenação entre os membros da ONU e enfatizava que era necessário o apoio às agências especializadas do sistema ONU, incluindo as de saúde (a OMS é a única). Essa resolução foi votada no dia 8 de maio e não foi aprovada por causa do veto dos Estados Unidos. O país declarou que o texto mencionava a OMS ao afirmar que todos os Estados devem apoiar todas as agências do sistema ONU.
Além disso, Algumas ONGs têm criticado o Conselho de Segurança por não conseguir chegar a uma conclusão sobre o assunto. O órgão sozinho não seria o encarregado de agir diretamente no combate ao coronavírus, mas poderia ter apoiado o pedido de Guterres sobre o cessar-fogo, porque isso ajudaria a aliviar outras crises humanitárias e facilitaria o gerenciamento da pandemia.
As dúvidas sobre se o Conselho de Segurança deve tomar medidas para gerir essa crise impedem que de fato aconteça algo por parte da ONU. Para além do pedido de cessar-fogo proposto pelo presidente da organização, António Guterres, a ONU não consegue sair do lugar enquanto as duas principais potências, China e os EUA não deixarem de lado suas diferenças. Portanto, as tensões externas entre a China e os Estados Unidos afetam as dinâmicas internas da ONU e se traduzem em uma paralisia do Conselho de Segurança da ONU.
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
A Organização Mundial da Saúde (OMS) está acompanhando a crise desde seu início, mas tem recebido muitas críticas. No início do ano, o presidente Donald Trump teceu elogios sobre a resposta da OMS à crise causada pelo coronavírus. Porém, no dia 14 de abril, depois de inúmeras críticas, o presidente anunciou que retiraria seu apoio financeiro à agência de saúde. Trump teria tomado essa decisão alegando que a organização não estaria cumprindo seu papel, não teria alertado sobre os riscos de uma pandemia e não teria sido transparente. Ele ainda afirmou que a OMS seria uma “marionete” da China. Além disso, alguns Estados a acusam de ter tido uma resposta atrasada. A organização se defende afirmando que desde o princípio alertou sobre os perigos do novo vírus e as consequências da doença. A China, por sua vez, avalia que as críticas à OMS são uma politização da pandemia, o que seria uma violação à moralidade internacional e dificultam a gestão internacional da crise.
No dia 19 de maio, a Assembleia Mundial da OMS aprovou uma resolução para avaliação da resposta internacional e da organização à pandemia de Covid-19. A reunião aconteceu por teleconferência e os 194 Estados-membros concordaram com a resolução. O objetivo é fazer uma análise sobre a experiência que a organização ganhou com a crises e sobre as lições que podem ser tiradas, com a intenção de desenvolver recomendações para uma melhor resposta a pandemias e o reforço do Programa de Emergências Sanitárias da OMS. O que seria avaliado seriam as ações da OMS, seus tempos de ação e a eficácia de seus mecanismos. A organização pede que os Estados-membros forneçam informações detalhadas sobre a saúde pública e que mantenham o financiamento à OMS para que a organização consiga responder às necessidades da saúde pública no âmbito global.
Tedros afirmou que essa avaliação ocorrerá o mais breve possível, mas que a atual prioridade da OMS seria a ação para lidar com a pandemia. No mesmo dia Trump ameaçou transformar a suspensão temporária do financiamento em uma suspensão permanente a ainda considerar uma saída da organização. Ele considera que a OMS é muito dependente da China e afirma que uma reforma da instituição tem que mostrar independência em relação ao país.
Apesar da crise em relação aos Estados Unidos, a União Europeia, que apresentou a resolução, considerou que o resultado da Assembleia Mundial mostra o comprometimento dos Estados-membros com a cooperação para a gestão dessa crise e frisa a importância da reafirmação do multilateralismo. Esse julgamento foi pedido pela União Europeia em nome de mais de 100 países, incluindo a China e outros atores do Sistema Internacional.
O fato de ser questionada por alguns governos e perder apoio por parte dos Estados Unidos, desestabiliza a organização e mostra que ela é palco, mais uma vez, da disputa política entre EUA e China, porque a ausência estadunidense, abre espaço para o protagonismo chinês, o que pode incomodar também outras potências.
A União Europeia
Por fim, a União Europeia também encontra dificuldades para gerir a crise, principalmente, no que diz respeito às questões econômicas. O bloco europeu já passava por uma dificuldade que foi o Brexit e sofreu ainda mais com a pandemia, principalmente no sul com Espanha e Itália apresentando muitos casos e mortes. Inicialmente, existiram algumas divergências internas sobre a solução proposta dos chamados “coronabonds”, que seria a emissão e gestão única de dívida pública na zona do euro. Alemanha, Holanda e outros países do norte não aceitavam a proposta. A Itália, por sua vez, ameaçava abandonar a integração monetária, porque estava tendo muitas perdas econômicas, por ter sido um dos principais focos da pandemia na Europa.
Porém, ainda nessa semana, os impasses que existiam sobre um plano econômico para a crise foram solucionados. A Alemanha e a França, as maiores economias da União Europeia, estavam a frente de um acordo sobre um fundo de recuperação para o bloco, que garante 500 bilhões de euros e para começar a funcionar precisa passar pelo Parlamento Europeu. A Alemanha era contrária a solução de emissão de dívida para injetar dinheiro nas economias dos Estados-membros, mas seu posicionamento mudou depois de conversar com outros líderes europeus sobre uma resposta à crise econômica.
O plano proposto por Merkel e Macron precisa ser aceito por todos os Estados-membros, o que pode ser dificultado pelo posicionamento de Áustria, Dinamarca e Holanda, que estão entre os países que mais contribuem para o orçamento da União Europeia e defendem o empréstimo, não o coronabonds.
Ocorreram também tensões entre Portugal e Holanda, pois o Ministro das Finanças holandês acusou a Espanha e Itália, dois países muito afetados pela pandemia de não serem capazes de gerir a crise, questionando o motivo desses dois Estados não terem orçamento para tal. Outra questão que causou tensão na UE foi a aprovação de uma lei na Hungria, que permite que Viktor Orbán governe por decreto no contexto do estado de emergência por causa da pandemia. Essa decisão gerou preocupações por toda a Europa e na Comissão Europeia, que afirmou que iria monitorar o governo por causa dos poderes reforçados nas mãos do Primeiro-Ministro húngaro.
A discordância sobre os coronabonds, expressa um debate que já acontece dentro da UE sobre esse assunto, os chamados eurobonds. Mais uma vez, uma organização encontra dificuldades para tomar medidas em relação à crise por causa de divergências internas entre os Estados, que não existem somente pela crise atual. Além disso, apresenta fragilidades políticas que geram tensões.
Portanto, pode-se perceber que essas três organizações apresentaram conflitos internos, mas que nenhum deles ameaça sua existência. Um ponto que chama atenção de um modo geral é como a tensão na relação entre as duas potências mundiais, Estados Unidos e China, afeta a dinâmica e, consequentemente, o desenvolvimento de ações nas Organizações Internacionais das quais elas fazem parte. Ou seja, nesse momento de pandemia, as Organizações Internacionais acabam por refletir problemáticas externas ou por expor e acentuar problemáticas internas que já existiam. Mas, a conclusão tirada por essas instituições é que o multilateralismo necessita ser fortalecido na crise para que ela seja superada.
Por Ana Clara Luquett (@aluquett)




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