CHINA: aniquilação e violência de minorias muçulmanas

De um lado, observamos um Estado que cresce 6,6% por ano e que se tornou, na última década, a principal potência econômica do planeta, superando o PIB dos Estados Unidos. Do outro lado, vemos um país asiático utilizando seu poder econômico para silenciar e intimidar outros governos e instituições internacionais que estão condenando suas violações de direitos humanos. 

A República Popular da China está utilizando a retórica “Guerra ao Terror” dos EUA para justificar ações retrógradas em território nacional. Uma dessas ocasiões é utilizar desse discurso para reprimir os Uighurs, que são um dos 56 grupos étnicos oficialmente reconhecidos pelo governo chinês; um grupo minoritário principalmente muçulmano e de língua turca que compreende menos de 1% da população chinesa – embora eles vivam na maior província da China, a região autónoma de Xinjiang ou Turquestão Oriental, como muitos Uighurs preferem chamar, especialmente aqueles que apoiam a independência da China.

Com o atentado de 11 de setembro de 2001, Pequim aproveitou do discurso anti- terrorista de George Bush, que obteve coro internacional, para marcar forte oposição à região. Nos últimos anos, evidenciou-se uma maior repressão aos Uighurs, declarando-os potenciais terroristas e separatistas. Essa islamofobia cresceu ao nível de serem encontrados campos de concentração com até um milhão de muçulmanos Uighur, segundo a ONU. No entanto, no início de 2019, o Departamento de Estado corrigiu esse número dizendo que a estimativa beirava a de 3 milhões de muçulmanos túrquicos, incluindo uigures, cazaques, quirguizes e outros.

Ao longo dos anos, foram observados diversos ataques contra as minorias da região de Xinjiang. A atual repressão teve início após uma onda de violência antigovernamental e anti chinesa, abrangendo confrontos violentos entre as comunidades Han e Uighur, que matou pelo menos 197 pessoas. Outra onda de violência varreu a região em 2012, forçando muitos Uighurs a fugir da China. Em maio de 2014, poucos dias antes do presidente da China, Xi Jinping, convocar uma conferência em Pequim sobre o futuro da política para Xinjiang, houve um ataque em uma feira livre que matou mais 39 pessoas. Em 2015, cerca de 100 Uighurs foram deportados pela Tailândia para a China. 

Desde 2017, as autoridades da região autónoma, à noroeste do país, detiveram milhares de uigures, cazaques e outros muçulmanos em campos de concentração. Os “retornados forçados” enfrentaram severas perseguições, torturas, abusos e até desaparecimentos na China. Grupos de direitos humanos afirmam que as autoridades chinesas executaram vários deles no passado.

Em outubro de 2018, as autoridades chinesas em Xinjiang revisaram a legislação para permitir o uso de “centros de educação e treinamento” para combater o extremismo religioso. Defensores dos direitos dos Uighurs dizem que, na prática, os centros são campos de internação nos quais cerca de 2 milhão de muçulmanos minoritários foram colocados nos últimos anos. A China diz que os campos são “centros de treinamento” para equipar pessoas com habilidades empregáveis para ajudar a combater o extremismo islâmico na província de Xinjiang, ainda local de frequente violência.

Uighurs que fugiram para os EUA e Europa dizem que as autoridades chinesas estão tentando suprimir seu ativismo, indo atrás de seus familiares que ainda vivem na China. Os activistas Uighur dizem que os seus familiares libertados os desencorajaram de protestar contra o programa de internamento da China em Xinjiang. Eles dizem que está se tornando cada vez mais difícil para eles levantar a questão Uighur em plataformas internacionais.

Embora o governo chinês neguem a repressão e a existência dos campos, e tenham adotado a nomeação de “campos de reeducação”, no final do ano de 2019, documentos governamentais do Partido Comunista foram enviados para o New York Times, apelidados de China Cables, confirmando que o próprio presidente da China apelou para a demonstração de “nenhuma misericórdia” contra os Uighurs e que um alto funcionário do Partido Comunista em Xinjiang ao tentar parar algumas dessas medidas repressivas contra os Uighurs, foi preso.

Alguns meses antes do vazamento dos documentos, em julho de 2019,  22 nações, incluindo o Reino Unido, frança e Canadá, assinaram uma carta dirigida à ONU pedindo à China que terminasse seu programa de detenção em massa em Xinjiang. Em novembro, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei restringindo a venda de tecnologia de vigilância a Pequim e aplicando sanções contra as autoridades chinesas envolvidas no encarceramento de Uighurs. Demonstrando que mesmo a geralmente islamofóbica administração Trump tomou uma linha forte contra a repressão dos Uighurs.

Enquanto isso, o Qatar iniciou a assinatura de uma carta (da qual retirou seu nome em agosto, ao adotar uma “posição neutra”) com outras 37 nações apoiando as ações da China. Alguns outros líderes árabes se recusaram a condenar o tratamento com Uigures, embora alguns meios de comunicação, especialmente os sediados no Qatar, tenham destacado os poderes regionais por não defenderem seus compatriotas muçulmanos. 

Vozes de peso no Golfo, incluindo a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, manifestaram o seu apoio à repressão dos terroristas- a justificativa de Pequim para os campos – enquanto em visitas de Estado à China. “A China tem o direito de tomar medidas antiterrorismo e de extremismo para salvaguardar a segurança nacional”, disse Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita, durante uma visita à China este ano, de acordo com a mídia estatal chinesa.

Ainda pertencente a essa situação, é válido destacar a importância da região de Xinjiang no processo de evolução da Iniciativa do Cinturão e da Rota, estratégia de ampliação adotada pelo governo chinês envolvendo desenvolvimento de infraestrutura e investimento nos continentes africano, europeu e asiático. Segundo Wang Dehua, professor do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai,  a região é elemento importante pois há a passagem de dois de seus corredores econômicos, então, se não houver estabilidade, o planejamento de utilizar Xinjiang como área estratégica não irá se perpetuar.

O que podemos observar, portanto, ao final desse análise, é uma espécie de aniquilação e marginalização das minorias muçulmanas e de outras etnias, que juntas correspondem à cerca de 10% da população chinesa. O Governo chinês, que desde a meados da década de 1990 discursa sobre a ascensão pacífica do país, está caminhando para o lado oposto e assim perpetuando um discurso antagônico e violento.

Por: Luzia Maria (@luzia_mpr)

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