Segundo a Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU) que ocorreu em 1994, o termo terrorismo se define por:
“Atos criminosos pretendidos ou calculados para provocar um estado de terror no público em geral, num grupo de pessoas ou em indivíduos para fins políticos são injustificáveis em qualquer circunstância, independentemente das considerações de ordem política, filosófica, ideológica, racial, étnica, religiosa ou de qualquer outra natureza que possam ser invocadas para justificá-los”.
E a partir da análise da definição acima, é possível compreender que “terrorismo” é uma palavra elástica, ou seja, pode acoplar diversas características devido ao fato de não existir um consenso dentro da comunidade internacional a respeito de características pontuais do perfil de um terrorista. Por conta disso, o termo “terrorismo” ganha um forte teor político porque cabe aos tomadores de decisão – presidentes, primeiro-ministros, governadores, etc – apontarem o perfil e atitudes que classificariam um ato ou alguém como terrorista.
Por essa razão há o equívoco instalado no senso comum de associar o terrorismo a uma prática pertencente a pessoas provindas do Oriente Médio, em especial muçulmanas, estereótipo este que foi reforçado após a queda do World Trade Center, conhecido como torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos da América. Os resultados do ocorrido deram início a um dos pontos mais marcantes da política externa da dinastia Bush denominado como “Guerra ao Terror”, resposta ofensiva por meio de ações militares contra grupos terroristas.
Esse foi o ponto de partida para diversos conflitos entre o governo estadunidense, o Afeganistão e o chamado “Eixo do Mal” – Coreia do Norte, Irã e Iraque. Durante esse período, com o apoio de tropas britânicas e com a recusa de participação dos países membros do Conselho de Segurança da ONU, o governo dos EUA invadiu e bombardeou o Iraque com a premissa de que o país árabe armazenava armas de destruição em massa,
acusação que nunca foi comprovada. Motivo esse que descredibiliza a ação e gera dúvidas acerca das reais intenções dos governos envolvidos.
A problemática surge justamente da falta de critérios para delimitar ações e decisões que usam a prerrogativa de “terrorismo” para a realização de interesses próprios em torno de um povo, de um país e de um território. O caso que envolve toda a narrativa da Guerra ao Terror ilustra bem como a versatilidade do termo deu legitimidade a ações questionáveis contra o Iraque, Afeganistão e Irã. Utilizaram de um acontecimento para criar toda uma imagem em torno de uma etnia no intuito de criminalizar. Os árabes são parte do que podemos chamar de bode expiatório, que seriam grupos de pessoas que supostamente representam uma ameaça para a população de um Estado.
A cada período os Estados selecionam, de acordo com seus interesses, perfis (étnicos, religiosos, políticos…) para dirigirem sua atenção e esforços. Outros exemplos de grupos que já serviram como bodes expiatórios são os judeus, comunistas, latinos e muçulmanos.
E por conta dessa ampla definição,os Estados encontram facilidade para criar argumentos que os permitam ferir a soberania de outros Estados e deturpar a identidade de povos ou grupos os quais desejam atacar.
Essa manipulação não permite que sejamos capazes de identificar atos terroristas distantes dos estereótipos já estabelecidos e trabalhados pela mídia, pelos governos e Estados, já que depende de quem os tomadores de decisão tem o intuito de atingir. É uma questão de interesse social e político que ditam como o indivíduo será visto. Como um exemplo de casos terrorista performados por grupos que fogem os bodes expiatórios temos o caso do atirador Brenton Taurent, australiano que matou 51 muçulmanos – incluindo crianças e idosos – dentro de uma mesquita na Nova Zelândia, em 15 de março de 2019. O desfecho judicial do caso se deu esse ano. O tribunal levou em consideração a motivação ideológica da supremacia branca para categorizar a ação como um ato terrorista, fazendo do réu o primeiro condenado do país a prisão perpétua desacompanhada do direito de liberdade condicional.
Outro exemplo seria o atentado terrorista realizado pelo ultradireitista Anders Behring Breivik. Ele foi condenado pelo tribunal de Oslo a 21 anos de prisão pelos ataques que resultaram na morte de 77 pessoas no ano de 2011. Ele realizou dois atentados, um na cidade de Oslo, onde estacionou um veículo carregado de quase uma tonelada de explosivos em frente a um edifício de 17 andares que abrigava o escritório do primeiro ministro, dentre outras pendências governamentais. A explosão que trouxe a óbito 8 pessoas serviu de distração para o segundo atentado na ilha de Utøya, que por sua vez, abrigava jovens participantes de um partido do governo. Lá ocorreu um massacre de crianças e adolescentes, totalizando 69 mortes.
Para o estudo e compreensão do terrorismo dentro dos conflitos e contextos internacionais, é importante nos distanciarmos da perspectiva etnocêntrica reivindicada pelos Estados que as promovem para sermos capazes de identificar atos terroristas independente por quem sejam protagonizados. Porque, com um olhar mais crítico, é possível perceber quando um discurso é feito para encobrir segundas intenções e diminuir uma narrativa corrosiva, preconceituosa e precipitada acerca de grupos étnicos e religiosos, o que auxilia numa leitura justa e real dos acontecimentos em torno do mundo e seus conflitos.