TAIWAN: eleição presidencial e as implicações na relação Taiwan-China

O povo taiwanês foi às urnas no último sábado, 11/01, para a eleição presidencial, que pode vir a determinar o futuro das relações entre a Ilha e Pequim. Com 57,13% dos votos,  foi reeleita a atual presidente Tsai Ing-wen, líder do Partido Democrático Progressista (DPP), que defende uma maior autonomia do país frente a China, permanecerá no cargo por mais quatro anos. Ela ganhou de seu principal concorrente, Han Kuo-yu, do Partido Nacionalista ou como é popularmente conhecido, Kuomintang (KMT), tendo conquistado 38,61% dos votos, e que defende a narrativa de que Taiwan deve estar mais aberto às negociações com a China. 

Taiwan, oficialmente conhecida como República da China (RC), é uma ilha localizada na costa sul da China, governada independentemente da China continental desde 1949. A República Popular da China (RPC) vê a ilha como uma província, enquanto em Taiwan – território com seu governo eleito democraticamente – os líderes políticos possuem opiniões diferentes sobre o estatuto da ilha. Segundo o Consenso de 1992, entendimento alcançado entre os representantes do Partido Comunista Chinês (PCC) e o KMT, que até então governava Taiwan, existe somente “uma China” e portanto Taiwan não buscaria sua independência.  

Entretanto, apesar do partido nacionalista ainda aceitar o consenso como um ponto de partida para futuras negociações com o PCC, a atual presidente da ilha rejeita o acordo. Sua rejeição ao consenso, junto com a de outras vozes do DPP, deixa em aberto uma futura independência de Taiwan, levando o país a maiores tensões com a China. 

Fonte:  Office of the President, ROC (Taiwan)

Esse segundo mandato de Tsai, portanto, não facilitará uma melhoria das relações com a China, que considera Taiwan uma província separatista e promete colocá-la sob controle chinês, caso se faça necessário. Logo após sua primeira vitória, em 2016, as linhas de comunicação entre os países foi cortada, empregando-se táticas de opressão que favoreceram o KMT, que é favorável ao estreitamento de relações com o continente. Estas incluíram demonstrações de força militar, como velejar porta-aviões através do Estreito de Taiwan e caçar aliados diplomáticos ao redor do mundo que reconhecem o país como independente.

Apesar das medidas, os esforços políticos para enfraquecer o DPP não foram alcançados e no primeiro dia de 2019, o líder chinês Xi Jinping afirmou não descartar o uso da força militar para anexar Taiwan. No mesmo mês, Tsai declarou inaceitável a estrutura “um país, dois sistemas”, no qual Hong Kong é governado, e ao refutar as falas do presidente, suas palavras ganharam o impulso necessário em popularidade, que se manteve enquanto os eleitores de Taiwan assistiam os protestos anti-governamentais em Hong Kong, onde muitos desses acreditavam e ainda acreditam na possibilidade do próprio país compartilhar do mesmo destino, caso ele seja absorvido pela China. Desse modo o eleitorado de Taiwan se vê mais inclinado a resistência do que a acomodação com Pequim.

O relacionamento com a China do ponto de vista otimista é escasso, devido ao posicionamento duro de Xi, que optou por uma estratégia de “tudo ou nada”, porém, apesar de Tsai não estar caminhando para a unificação, também não se encaminhou para a declaração formal de independência. Logo, dado a importância de outros desafios que a China enfrenta atualmente – os protestos em Hong Kong, a condenação internacional por seu histórico de violação dos direitos humanos, apenas para citar alguns – os líderes chineses deveriam focar mais na estabilização do relacionamento com Taiwan.  

Credit: AP Photo/Chiang Ying-ying

A candidata às eleições presidenciais de 2020 em Taiwan, a presidenta Tsai Ing-wen, à direita, e o seu companheiro de candidatura, William Lai, celebram a sua vitória com apoiantes em Taipé, Taiwan, 11 de Janeiro de 2020.

Por: Luzia Maria (@luzia_mpr)

CHINA: a Nova Rota da Seda

A Nova Rota da Seda é um projeto chinês criado a partir do Cinturão Econômico da Rota da Seda, do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura e da Rota da Seda Marítima do Século XXI. A junção desses três projetos forma a chamada One Belt & One Road Initiative, que foi considerada elemento chave para o Partido Comunista Chinês até 2020. O governo lançou o detalhamento de seu plano em 2015. A Nova Rota da Seda está inserida em um contexto no qual Xi Jinping busca construir uma narrativa de “sonho chinês” e de “make China great again” para o rejuvenescimento da China.

Nesse sentido, o governo chinês desenhou um projeto de conectividade, que: 1) ajudasse a acelerar novamente o crescimento econômico, através de novas parcerias comerciais, facilitação do comércio e eliminação de barreiras; 2) aumentasse sua influência internacional, em uma conjuntura na qual os Estados Unidos tem recuado cada vez mais com o governo de Donald Trump, havendo assim um certo vácuo no Sistema Internacional que a China poderia ocupar; 3) investisse na melhoria da infraestrutura de países que não recebem atenção das instituições internacionais. Portanto, a iniciativa tem como principais pilares a infraestrutura e o desenvolvimento regionais e globais.

Os investimentos no âmbito da Nova Rota da Seda são feitos, principalmente, pelo Fundo da Rota da Seda que foi criado em 2014 com um capital de 40 bilhões de dólares, pelo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, o qual, inicialmente, investiu 100 bilhões de dólares e pelo Banco de Desenvolvimento da China que investiu 110 bilhões de dólares no projeto (dados obtidos no jornal Público).

Em termos geográficos, planeja-se construir rotas por terra compostas por ferrovias e rodovias, rotas marítimas e também oleodutos e gasodutos. Por terra, uma delas vai da China através da Ásia Central e Rússia para a Europa, outra da China através da Ásia Central e do Oeste asiático para o Golfo Pérsico e o Mediterrâneo, por fim uma vai da China através do Sudeste e Sul asiático para o Oceano Índico.

Já as rotas marítimas vão desde a costa chinesa através do Mar do Sul da China e do Oceano Índico se estendendo pela África e Europa e também do Mar do Sul da China para o Oceano Pacífico. Tudo isso para que os novos mercados alcançados possam consumir produtos chineses. Nesse espaço geográfico, a iniciativa inclui pelo menos 60 países que comportam aproximadamente 64% da população mundial e 30% do PIB mundial, por isso a Nova Rota da Seda tem chamado atenção de governos e instituições que estejam incluídos, ou não, nela.

Portanto, a Nova Rota da Seda é um projeto de conectividade entre a China e o mundo impulsionado por fatores econômicos, como o próprio crescimento chinês, mas também pela necessidade de apoiar o desenvolvimento de outras regiões no globo, que estão construindo uma nova realidade à qual a economia internacional precisa e adaptar. Essa iniciativa se aproveita de um vácuo de poder deixado pelo governo Trump no Sistema Internacional no qual a China pode se encaixar já que cresceu a ponto de não conseguir mais se esconder por trás da política externa low profile que tinha antes do governo de Xi Jinping.

Por: Ana Clara Luquett (@aluquett)

CHINA: a projeção na América do Sul

A intensificação das relações da República Popular da China com os países sul-americanos se estabeleceu junto ao seu destaque como potência mundial no início do século. Na década de 1990 e no início dos anos 2000, ficou explícito o notável fracasso da receita neoliberal estadunidense, adotada pelos países da região, e que ocasionou déficits econômicos graves, principalmente na economia argentina.

Em 2001, começa o ingresso da China na OMC (Organização Mundial de Comércio) e seu sucessivo destaque como compradora de recursos naturais e energéticos, base de seu acelerado crescimento econômico (14,2% em 2007, segundo o Banco Mundial). Visto isso, a economia da América do Sul se beneficiou da alta demanda internacional por matéria-prima na primeira década do século.

Em contrapartida, os países-destaque (Brasil e Argentina) tiveram seus setores industriais prejudicados pelo aumento paralelo de importações de mercadorias eletrônicas e mecânicas de origem chinesa. Os investimentos diretos da China no subcontinente também foram grandes, porém, majoritariamente, voltados a estruturas de exploração e escoamento de recursos naturais (cobre, aço, petróleo e soja). No âmbito político, houve estreitamento de laços com o líder regional, Brasil, em 2011, através da criação dos BRICS, grupo de integração e cooperação política.

Atualmente, a China tem presença imprescindível na economia dos países sul-americanos, sendo o principal parceiro comercial de Brasil e Chile. Consome das exportações das principais economias: Brasil (22%), Chile (25%); Argentina (7,4%), Colômbia (5,2%). Dentre as importações deles, está presente em: Brasil (19%), Chile (25%), Argentina (19%), Colômbia (19%). [Fonte: OEC – The Observatory of Economic Complexity, 2017].

Sua relação mais atual com a Venezuela é de extrema interdependência, em que o país sul-americano possui dívidas gigantescas. Levando a disputa comercial EUA-China em consideração, a América do Sul é espaço de disputa de poder direta das maiores potências do mundo.

Por: João Felipe Ferraz (@jlipe_ferraz)

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